A reforma tributária no Simples Nacional não representa o fim do regime, mas trará mudanças importantes na apuração dos tributos, na geração de créditos e na competitividade das pequenas empresas.
A reforma tributária aprovada pela Emenda Constitucional 132/2023 trouxe mudanças profundas na estrutura de tributos do país. Para empresas enquadradas no Simples Nacional, a situação gera muitas dúvidas: o regime vai acabar? Os impostos vão subir? O que acontece com os créditos tributários?
A resposta curta é: o Simples Nacional permanece, mas passa por adaptações importantes, especialmente com a criação do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), que substituem tributos que hoje fazem parte do próprio Simples. Isso exige que microempresas e empresas de pequeno porte entendam o novo ambiente fiscal antes que as mudanças entrem em vigor.
Este artigo explica o que muda, como funciona o regime híbrido, quais são os riscos reais e o que sua empresa pode fazer agora para se preparar com segurança.
O Simples Nacional vai acabar com a reforma tributária?
Essa é a dúvida mais comum entre empresários de pequeno porte, e a resposta é direta: não, o Simples Nacional não vai acabar.
A Constituição Federal protege o tratamento diferenciado para microempresas e empresas de pequeno porte como um princípio constitucional. A reforma tributária manteve essa proteção e deixou expresso que o Simples Nacional continuará existindo como regime simplificado.
O que vai mudar é a composição interna do regime. Hoje, o Simples recolhe, em uma única guia, uma série de tributos federais, estaduais e municipais, entre eles o ISS, o ICMS, o PIS e a Cofins. Com a reforma, o IBS e a CBS substituem esses tributos. Como eles terão regras próprias de apuração e de geração de crédito, o Simples precisará se adaptar para continuar funcionando de forma unificada ou passará a trabalhar com um modelo parcialmente separado.
Essa adaptação é o que ficou conhecido como regime híbrido, e é exatamente aí que mora a maior parte das dúvidas práticas.
Como funciona o regime híbrido no Simples Nacional
O regime híbrido é a principal mudança estrutural para empresas do Simples. Ele surge porque o IBS e a CBS, criados pela reforma, funcionam com um sistema de crédito financeiro amplo, semelhante ao modelo do IVA europeu. Nesse sistema, o comprador tem direito a se creditar do imposto pago na etapa anterior da cadeia.
O problema é que empresas do Simples Nacional hoje não geram crédito para seus clientes, ou geram em montante muito reduzido. Para um cliente enquadrado no Lucro Presumido ou no Lucro Real, comprar de uma empresa do Simples passa a ter um custo financeiro real, já que ele não consegue se creditar do IBS e da CBS pagos naquela operação.
Isso pode influenciar diretamente:
- A competitividade das empresas do Simples em relações B2B.
- A decisão do empresário sobre permanecer ou sair do regime.
- A precificação de produtos e serviços.
- O relacionamento comercial com fornecedores e clientes de outros regimes.
Uma das alternativas discutidas durante a tramitação da reforma é permitir que a empresa do Simples opte por recolher o IBS e a CBS fora do Simples, gerando crédito normalmente para seus clientes, enquanto os demais tributos continuam dentro do regime simplificado. Essa é a lógica central do chamado regime híbrido.
A regulamentação completa desse modelo ainda está em construção. A Lei Complementar 214/2025, que regulamentou parte da reforma, trouxe avanços importantes nesse sentido, mas o desenho final do Simples nesse novo ambiente será definido em lei complementar específica.
Como funciona o regime híbrido no Simples Nacional
Sugestão de leitura: Regime híbrido no Simples Nacional: como funciona e quando pode fazer sentido para pequenas empresas
O que muda na prática para microempresas e empresas de pequeno porte
Para microempresas e empresas de pequeno porte optantes pelo Simples Nacional, as mudanças da reforma tributária exigem atenção principalmente em relação à formação de preços, ao perfil dos clientes e ao aproveitamento de créditos tributários na cadeia de consumo.
Hoje, muitas empresas do Simples recolhem tributos de forma unificada, com uma lógica mais simplificada de apuração. Com a transição para o novo modelo, será necessário acompanhar como IBS e CBS vão interagir com o Simples Nacional, especialmente nos casos em que a empresa vende para outras empresas, presta serviços sujeitos ao ISS ou está próxima dos limites de faturamento do regime.
Antes de avaliar os impactos, é importante diferenciar os dois principais portes empresariais dentro do Simples Nacional:
| Categoria | Perfil | Faturamento estimado |
| ME | Microempresa optante ou apta ao Simples Nacional | Receita bruta anual igual ou inferior a R$ 360 mil |
| EPP | Empresa de Pequeno Porte optante ou apta ao Simples Nacional | Receita bruta anual superior a R$ 360 mil e igual ou inferior a R$ 4,8 milhões |
As mudanças tendem a ser mais relevantes para empresas que vendem para outras empresas, pois o crédito tributário pode influenciar a decisão de compra do cliente. Já negócios que vendem principalmente para consumidor final podem sentir impacto menor no curto prazo, embora ainda precisem acompanhar a transição das alíquotas e possíveis ajustes no cálculo dos tributos.
| Situação | Impacto potencial |
| Empresa que vende principalmente para outras empresas | Risco de perda de competitividade caso o comprador tenha menor aproveitamento de crédito tributário |
| Empresa que vende para consumidor final | Impacto menor em curto prazo, com atenção à formação de preços durante a transição |
| Empresa próxima ao limite de faturamento do Simples | Necessidade de revisar se o regime ainda é o mais vantajoso |
| Empresa com mix de clientes B2B e B2C | Necessidade de análise caso a caso com apoio contábil |
| Empresa prestadora de serviços com ISS | Atenção especial à transição para o IBS municipal |
Os limites de faturamento usados na tabela seguem a regra geral da Lei Complementar nº 123/2006: ME até R$ 360 mil de receita bruta anual e EPP acima de R$ 360 mil até R$ 4,8 milhões.
Sugestão de leitura: Crédito tributário na reforma tributária: como isso pode afetar pequenas empresas do Simples Nacional no B2B
Crédito tributário e a relação com clientes e fornecedores
Um dos aspectos menos discutidos, mas com grande impacto prático, é a questão dos créditos tributários na cadeia produtiva.
No modelo atual, um fornecedor do Simples não gera crédito de ICMS para o comprador, e o crédito de PIS/Cofins é limitado. Muitos clientes B2B já preferem fornecedores de outros regimes justamente por isso. Com a reforma, esse comportamento tende a se intensificar, porque o IBS e a CBS serão tributos não cumulativos amplos, e a diferença entre comprar de um fornecedor que gera crédito e um que não gera se tornará mais visível.
Para pequenas empresas que atendem grandes redes, indústrias ou distribuidores, essa questão pode se tornar um fator de exclusão de contratos. Entender como isso afeta o seu negócio específico exige uma análise real do perfil dos seus clientes e da cadeia em que você está inserido.
Essa análise não é simples e não deve ser feita com base em suposições. É um trabalho que exige visão fiscal, contábil e comercial integradas.
Como se preparar para a reforma tributária se você tem uma pequena empresa
A já começa agora em 2026, com clareza sobre onde sua empresa está e o que ela pode precisar mudar.
Os passos mais concretos que uma empresa do Simples pode dar neste momento são:
Revise seu enquadramento tributário atual. O Simples Nacional ainda será o melhor regime para o seu caso depois das mudanças? Esse questionamento precisa ser feito com base nos seus números reais, não em suposições.
Mapeie o perfil dos seus clientes. Se a maior parte das suas vendas é para empresas que dependem de crédito tributário, o regime híbrido pode ter impacto direto na sua competitividade. Esse mapeamento precisa acontecer antes que seus clientes comecem a questionar.
Entenda sua cadeia de fornecedores. Alguns dos seus fornecedores podem mudar de comportamento com a reforma. Empresas que hoje compram de você pelo preço podem passar a avaliar também o crédito gerado na operação.
Acompanhe a regulamentação em andamento. A reforma tributária ainda está sendo regulamentada em detalhes. Mudanças nas leis complementares podem alterar cálculos e planejamentos feitos hoje. Ter um acompanhamento contábil ativo é fundamental.
Não espere o problema chegar para agir. A transição é gradual, mas decisões de planejamento tributário levam tempo para ser implementadas corretamente. Empresas que começam a análise agora terão mais margem para ajustar sua estrutura sem pressão.
Como se preparar para a reforma tributária se você tem uma pequena empresa
Sugestão de leitura: Como preparar sua empresa do Simples Nacional para a transição da reforma tributária até 2033
Cronograma de transição e o que esperar até 2033
A reforma tributária estabelece um período de transição de cerca de dez anos, com início previsto para 2026 e conclusão em 2033. Durante esse período, os tributos antigos e os novos coexistirão de forma gradual.
Para o Simples Nacional, a transição tem nuances específicas que ainda dependem de regulamentação complementar. Os pontos já definidos ou amplamente esperados incluem:
- A extinção progressiva do PIS, da Cofins, do ISS e do ICMS no formato atual.
- A criação do IBS como tributo compartilhado entre estados e municípios.
- A criação da CBS como tributo federal em substituição ao PIS/Cofins.
- A definição de regras específicas para o Simples Nacional dentro desse novo modelo.
O cenário mais provável é que o Simples continue existindo com um novo formato que incorpora o IBS e a CBS de maneira compatível com a lógica simplificada do regime. O que ainda não está completamente definido é como a geração de crédito vai funcionar para as empresas optantes.
Acompanhar esse calendário com apoio de um contador especializado em reforma tributária é a forma mais segura de não ser surpreendido por mudanças que afetam diretamente o fluxo de caixa.
Por que o apoio contábil especializado importa neste momento
A reforma tributária é tecnicamente complexa. As normas estão sendo publicadas em etapas, os prazos podem ser ajustados e as interpretações ainda estão sendo consolidadas. Para uma microempresa ou empresa de pequeno porte, tentar navegar sozinho por essa transição representa um risco real.
A TCE Contabilidade com foco em empresas do Simples Nacional pode ajudar a:
- Analisar se o enquadramento atual ainda será vantajoso após as mudanças.
- Simular cenários de tributação para diferentes regimes.
- Acompanhar a publicação das leis complementares e seus impactos específicos.
- Orientar sobre a relação com clientes e fornecedores em termos de crédito tributário.
- Preparar a empresa para a transição sem interromper a operação.
Esse trabalho não é pontual. É um acompanhamento contínuo que precisa ser feito por quem conhece a legislação e o perfil do negócio ao mesmo tempo.
Perguntas frequentes sobre a reforma tributária e o Simples Nacional
O Simples Nacional vai acabar com a reforma tributária?
Não. O Simples Nacional está constitucionalmente protegido e continuará existindo. O que vai mudar é a composição interna do regime, com a substituição de tributos como ISS, ICMS, PIS e Cofins pelo IBS e pela CBS.
O que é o regime híbrido no Simples Nacional?
O regime híbrido é um modelo em que a empresa do Simples pode recolher o IBS e a CBS fora do regime simplificado, gerando crédito tributário para seus clientes, enquanto os demais tributos continuam dentro do Simples. Os detalhes desse modelo ainda estão sendo regulamentados.
Minha empresa perde competitividade por estar no Simples após a reforma?
Depende do perfil dos seus clientes. Se você vende principalmente para consumidores finais, o impacto é menor. Se você atende empresas que dependem de crédito tributário, a questão exige análise cuidadosa com seu contador.
Quando as mudanças começam a valer para o Simples Nacional?
O período de transição começa em 2026 e se estende até 2033. As mudanças são graduais, mas o planejamento tributário precisa começar antes da entrada em vigor das novas regras.
O MEI também é afetado pela reforma tributária?
Sim, mas o impacto direto no curto prazo tende a ser menor para o MEI, especialmente para quem atende consumidor final. O MEI ainda terá ajustes durante a transição, e acompanhar as atualizações com apoio de um contador é recomendado.
Vale a pena sair do Simples Nacional por causa da reforma tributária?
Não existe uma resposta única para essa pergunta. Depende do faturamento, do perfil de clientes, da carga tributária comparada e das condições específicas do negócio. Essa avaliação precisa ser feita com base em dados reais e com orientação contábil.
O que é o IBS e como ele afeta empresas do Simples?
O IBS é o Imposto sobre Bens e Serviços, criado pela reforma para substituir o ICMS e o ISS. Para empresas do Simples, o IBS interfere principalmente na geração de crédito tributário para clientes de outros regimes.
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